O peso da caneta na última rodada do Brasileirão
A última rodada do Campeonato Brasileiro sempre traz decisões técnicas que definem títulos, vagas na Libertadores e até rebaixamentos. Em 2025, não foi diferente. Arbitragens questionáveis marcaram jogos cruciais, com erros que alteraram o destino de clubes e geraram debates acalorados entre analistas e torcedores. O VAR, que deveria ser a salvaguarda da justiça, muitas vezes se mostrou lento, omisso ou até cúmplice de interpretações duvidosas. Analisar esses lances não é apenas apontar falhas, mas entender como a pressão do momento afeta profissionais que, teoricamente, deveriam estar imunes a ela.
Um dos casos mais discutidos foi o de gols anulados pelo VAR, como o de Vinícius Júnior no clássico entre Flamengo e São Paulo. A jogada, revisada em câmera lenta, mostrou que o atacante estava em posição legal, mas o assistente levantou a bandeira por suposto impedimento. O episódio reacendeu a discussão sobre a consistência das decisões e a falta de critérios claros para intervenções do VAR. Não foi um erro isolado, mas parte de um padrão que se repetiu em outras partidas da rodada, como veremos a seguir.
O gol anulado de Vinícius Júnior e o fantasma da Copa de 2018
O lance que tirou o gol de Vinícius Júnior do Flamengo na última rodada não foi apenas um erro técnico, mas um déjà vu incômodo para quem acompanha o futebol brasileiro. O mesmo árbitro que cometeu a falha já havia sido protagonista de uma polêmica envolvendo a Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2018. Na ocasião, ele validou um gol irregular da Suíça contra o Brasil, em lance que gerou revolta entre os jogadores e comissão técnica. Sete anos depois, o profissional voltou a ser centro de controvérsias, agora em um jogo que poderia ter definido o campeão do Brasileirão.
A jogada em si foi simples. Vinícius recebeu a bola na entrada da área, driblou o zagueiro e finalizou no canto do goleiro. O assistente, porém, sinalizou impedimento, e o VAR demorou quase dois minutos para confirmar a marcação. As imagens mostraram que o atacante estava pelo menos 30 centímetros à frente do último defensor no momento do passe, dentro da margem de erro permitida pelas regras. A lentidão na revisão e a falta de clareza na comunicação com o público reforçaram a sensação de que o sistema ainda não está preparado para lidar com momentos de alta pressão.
A expulsão polêmica no Choque-Rei e a segurança dos árbitros
No clássico entre Palmeiras e Corinthians, um cartão vermelho controverso mudou o rumo da partida. O árbitro expulsou o volante palmeirense após uma dividida forte com um atacante corintiano, mas as imagens mostraram que o contato foi mínimo e não justificava a punição máxima. O jogador expulso, que já havia recebido amarelo no primeiro tempo, deixou o time com um a menos em um jogo equilibrado, e o Corinthians acabou vencendo por 2 a 1, resultado que manteve o clube na briga pelo título.

A polêmica não se limitou ao campo. Após o apito final, o árbitro precisou ser escoltado por policiais militares até o vestiário, sob vaias e protestos da torcida palmeirense. O episódio reforçou a necessidade de entender como árbitros acertam sob pressão em partidas de alta tensão, onde erros podem ter consequências graves. A CBF, que já havia implementado medidas de segurança para os profissionais, precisou reforçar a escolta em partidas decisivas, mas o problema vai além da proteção policial. A falta de confiança nas decisões arbitrais mina a credibilidade do campeonato e alimenta a desconfiança dos torcedores.
O VAR e a lentidão que custa pontos
O uso do VAR na última rodada do Brasileirão revelou um problema recorrente: a demora nas revisões. Em pelo menos três jogos, lances decisivos levaram mais de três minutos para serem analisados, tempo suficiente para esfriar o ânimo dos jogadores e desestabilizar o ritmo da partida. No jogo entre Internacional e Athletico Paranaense, um pênalti não marcado para o Inter, após revisão de quase quatro minutos, gerou revolta na equipe gaúcha. O árbitro, após consultar o VAR, manteve a decisão inicial, alegando que não havia provas suficientes para mudar o entendimento.
A lentidão não é apenas uma questão de tempo, mas de eficácia. Quando o VAR demora para intervir, a expectativa criada em torno do lance aumenta, e a decisão final, mesmo que correta, acaba sendo questionada. No caso do Internacional, a demora fez com que os jogadores perdessem a concentração, e o time acabou sofrendo o gol da derrota nos minutos finais. A CBF já havia prometido reduzir o tempo das revisões, mas os números mostram que pouco mudou. Em 2025, a média de tempo para análise de lances pelo VAR no Brasileirão foi de 2 minutos e 45 segundos, acima do recomendado pela FIFA, que sugere que as intervenções não ultrapassem 90 segundos.
O pênalti não marcado que definiu o rebaixamento
Um dos lances mais dolorosos da última rodada aconteceu no jogo entre Ceará e Atlético Goianiense, que decidiu o rebaixamento do time cearense para a Série B. Aos 38 minutos do segundo tempo, o atacante do Ceará foi derrubado dentro da área em lance que, pelas imagens, configurava pênalti claro. O árbitro, porém, não marcou a infração, e o VAR, mais uma vez, não interveio. O Atlético venceu por 1 a 0 e escapou do descenso, enquanto o Ceará, que dependia da vitória, amargou a queda de divisão.
A decisão gerou protestos da diretoria do Ceará, que protocolou um recurso na CBF pedindo a anulação do resultado. O clube argumentou que o erro arbitral foi determinante para o rebaixamento e que, sem a falha, o time teria chances reais de se salvar. A CBF, no entanto, manteve o resultado, alegando que não havia provas suficientes para alterar a decisão do árbitro. O caso reacendeu o debate sobre a necessidade de um sistema de revisão mais transparente, onde as imagens analisadas pelo VAR fossem disponibilizadas ao público em tempo real, evitando especulações e aumentando a confiança nas decisões.
A falta de critérios nas faltas violentas
Outro ponto recorrente nas polêmicas da última rodada foi a falta de critérios na marcação de faltas violentas. Em jogos como Bahia x Fortaleza e Botafogo x Vasco, jogadores receberam cartões amarelos por entradas que, pelas imagens, mereciam vermelho direto. No clássico baiano, a avaliação de agressões em campo pelo árbitro gerou controvérsia após uma entrada violenta ter resultado apenas em advertência. A falta, que poderia ter resultado em expulsão, acabou não sendo revisada pelo VAR, apesar de ter sido um lance claro de jogo perigoso.

A inconsistência na aplicação das regras gera desequilíbrio nas partidas. Jogadores que cometem faltas violentas saem impunes, enquanto outros são punidos por infrações menores. No confronto entre Botafogo e Vasco, a falta de intervenção do VAR na partida após revisão de um lance polêmico levantou questionamentos sobre seu impacto no resultado. A falta de uniformidade nas decisões faz com que os times se sintam injustiçados, especialmente em jogos decisivos, onde um cartão a mais ou a menos pode definir o resultado.
O que esperar das próximas rodadas
As polêmicas da última rodada do Brasileirão deixaram claro que o sistema arbitral ainda precisa evoluir. O VAR, que deveria ser a solução para os erros, muitas vezes se torna parte do problema, seja pela lentidão, pela falta de transparência ou pela inconsistência nas decisões. A CBF já anunciou que irá promover treinamentos adicionais para os árbitros, mas a questão vai além da capacitação técnica. É preciso repensar o modelo de revisão, talvez adotando um sistema onde as imagens sejam compartilhadas com o público em tempo real, como já acontece em outras ligas ao redor do mundo.
Para os torcedores, resta a sensação de que o futebol brasileiro ainda está refém de decisões que escapam ao controle dos clubes e dos jogadores. Enquanto isso, os árbitros seguem sob pressão, sabendo que um erro pode custar não apenas pontos, mas também a segurança física. A última rodada foi apenas mais um capítulo em uma história que se repete a cada temporada, mas que, desta vez, deixou marcas profundas em times que lutavam por objetivos tão distintos quanto um título e a permanência na elite.
Sou apaixonado por futebol e acompanho de perto o trabalho dos árbitros nas partidas. Gosto de analisar as decisões em campo e escrever resenhas detalhadas que ajudem leitores a entender o impacto das regras no jogo.

